Agridoce - Capítulo 7




Eu sabia que tinha algo de errado com o meu dia. Foi calmo demais. Vê-la ali, era a comprovação de que ele não iria encerrar bem.

- Você como sempre, muito educada - ela ironizou e seguiu rumo a cozinha fazendo careta - Que cheiro é esse?


Fechei a porta e corri para desligar o cooktop.


- Droga! Você me fez queimar o meu salmão - ela não respondeu.

Apenas me retrucou com o seu olhar de desprezo que eu detestava.


Para falar a verdade eu detestava muitas coisas nela. Odiava o fato de ter herdado seus olhos verdes, seu rosto fino e seu cabelo irritantemente liso e bem cortado. Fiz questão de deixar o meu longo, na esperança de suavizar as semelhanças mas, as pessoas faziam questão de nos lembra-las. 

- O que você veio fazer aqui? - indaguei raspando a frigideira com a espátula, sob a lixeira.

- Eu vim tentar te entender. Saber o porque de você sempre querer interferir em tudo.

- Precisa ser mais específica.
Ela respirou fundo, impaciente.


- Estou falando do seu pai. Do fato de você não respeitar a decisão dele.

Joguei a frigideira e a espátula na pia, fazendo um tremendo estrondo. Nesse instante 
Bobby foi correndo em sua direção para cumprimentá-la. Ela fazia carinho nele. Bem que poderia tratar as pessoa assim.

- Vem Bobby! - ele veio ao meu encontro, peguei-o e fechei-o em meu quarto. Algo me dizia que iríamos discutir e não queria que o meu bebê assiste ao espetáculo.

- Aquela loucura? - continuei a conversa - Ele não sabia o que estava fazendo.

- Claro que sabia! Ele estava lúcido.

- Ele estava com medo. Com medo de enfrentar a doença.

- Veja bem Patrícia, ele sabia que o tumor já tinha se desenvolvido bastante. Ele não quis mais fazer quimioterapias porque isso o debilitava demais. Não queria mais esse sofrimento. - ela se aproximou de mim e ameaçou me tocar, mas acho que o bom senso a fez recuar.

- O juiz assim como eu, entendeu que no momento em que ele assinou o termo de responsabilidade para não fazer mais esse tratamento, estava confuso, sensível. Mas você não entende. Sensibilidade não é o seu forte - caminhei para a sala, ela me seguiu. Quanto mais perto da porta, mais fácil era de expulsá-la.

- Engano seu. Tenho sensibilidade e respeito pelas as decisões dos outros.

- Claro que tem. É tão grande a sua sensibilidade e o seu respeito que você foi capaz de abandoná-lo quando ele mais precisou.


- Eu não o abandonei, apenas recomecei a minha vida. Não tenho culpa se você não deu rumo a sua.


- Belo jeito de dar um rumo a vida. Se envolvendo com um cara que tem idade para ser o seu filho. Você não tem vergonha de prestar esse papel de vadia?


Meu rosto ardeu. Ficamos em silêncio. Sua testa enrugou eu sabia que era sinal de que ela chegou no seu limite. O tapa foi forte, levei minha mão na bochecha esquerda e parecia que seus dedos ainda estavam ali. Doeu. Mas o peso da bofetada não foi tão grande quanto o peso da palavra "vadia". A vida inteira tentando impor seus valores, mas agia de forma contrária a eles. 
Não me arrependi. Não havia outra forma de chamar uma mulher que se comportava daquela maneira. 

- Vá embora, por favor - abri a porta da sala.

Ela saiu a passos duros, não havia mais nada a ser dito.

Deitei no sofá. Olhei para o teto. Como eu queria a minha analista ali. Não entendia o porque dela se preocupar assim. Não tinham mais vínculos, não viviam mais juntos. Para o divórcio sair era só questão de tempo.

Meu celular bipou. Quem seria? Peguei-o e vi que tinha uma mensagem de áudio no whatsapp. 

"Patrícia, cadê você? O que está fazendo? Vem pra cá aproveitar o fim de noite com a gente."

Larissa. Tinha até me esquecido da festinha que ela me convidou. Quer saber? Vou lá. Vou mostrar para minha mãe que eu tenho capacidade de recomeçar sim.


Teclei de volta pedindo o endereço. 

Passei uma maquiagem leve, coloquei um pretinho básico com um salto vermelho e pronto. Estava na hora de me socializar.

Era menos de 30 minutos da minha casa. Ela morava na Mooca, um bairro caro por sinal. 

A casa não era muito grande, mas ela tinha bom gosto para decoração. Eu ouvia vozes no fundo, deveriam estar se divertindo. Na sala tinha muitas fotos pregadas em um mural. No teto, um lustre fantástico daqueles bem clássicos. Ela usou uma estampa preta com flores brancas no papel de parede. 

- Você mora sozinha? - puxei assunto.

- Não, moro com o meu namorido. Ele está viajando para um workshop, preferi ficar - ela respondeu sorrindo. Estava bastante alegre, não sabia se era por causa da bebida porque não a conhecia intimamente - Fique aí, já volto.

Ela retornou com uma câmera Polaroid que tira fotos instantâneas.

- Sorria! - fiz com um certo esforço.

- Pronto. Daqui a pouco saberemos o resultado - ela colocou a foto ainda preta em cima da mesa de centro.

- Vodca, Whisky, ou Cerveja?

- Whisky. Puro.

- Nossa, quer ficar bêbada rapidinho é?

Seguimos para a cozinha, ela retirou a garrafa da bebida de uma balde de gelo de vidro e pegou um copo do armário. A cozinha também não era nada mal. Mas percebi que ela não teve o mesmo empenho em decorar, como na sala.

- Vamos, eles estão lá fora.



Comentários

  1. Ai ai ai, as coisas estão se complicando. Eu particularmente acho que a Patrícia deveria ter respeitado o desejo do pai dela. Foi meio chocante o jeito com que ela tratou a mãe. Essa menina precisa mesmo de terapia. Parece ter bom coração, mas muitos problemas na cabeça. Estou torcendo por ela.

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    1. SIm, a Patrícia tem muitos problemas.Vamos torcer para que ela resolva tudo da melhor maneira possível. Obrigado pelo o comentário.

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  2. Eu estava pensando na sua história ontem de noite, e me perguntando "Será que ele não vai postar mais?" Tenho trauma como pessoas que deixam histórias pela metade.

    Quanto mais a história se desenrola, mais parece que tem algo escondido. Com certeza a Patrícia tem motivos para ser como é.

    See you!

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    1. Desculpa, eu fico enrolando para postar kkkk Mas já tenho um plano para a segunda temporada. Escrever todos os capítulos de uma vez e programar as postagens. Tem mais coisas que a fizeram se tornar daquela maneira, logo logo descobrimos.

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  3. Olá, Beto.
    Gostei bastante de sua escrita, vou dá uma conferida nos capítulos anteriores de Agridoce.
    Até mais. http://realidadecaotica.blogspot.com.br/

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    1. Obrigado Renato, espero que goste dos outros capítulos.

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  4. Ahhhhhhhh, gosto bastante do jeito que você escreve.É simples e conciso.
    ahahahha
    continue a história,please ^^


    beeeeijão :)
    http://carolhermanas.blogspot.com.br/

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    1. Obrigado pela a vsitia Carolina. Com esse comentário é impossível não continuar beijos :)

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