quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Agridoce - Capítulo 7




Eu sabia que tinha algo de errado com o meu dia. Foi calmo demais. Vê-la ali, era a comprovação de que ele não iria encerrar bem.

- Você como sempre, muito educada - ela ironizou e seguiu rumo a cozinha fazendo careta - Que cheiro é esse?


Fechei a porta e corri para desligar o cooktop.


- Droga! Você me fez queimar o meu salmão - ela não respondeu.

Apenas me retrucou com o seu olhar de desprezo que eu detestava.


Para falar a verdade eu detestava muitas coisas nela. Odiava o fato de ter herdado seus olhos verdes, seu rosto fino e seu cabelo irritantemente liso e bem cortado. Fiz questão de deixar o meu longo, na esperança de suavizar as semelhanças mas, as pessoas faziam questão de nos lembra-las. 

- O que você veio fazer aqui? - indaguei raspando a frigideira com a espátula, sob a lixeira.

- Eu vim tentar te entender. Saber o porque de você sempre querer interferir em tudo.

- Precisa ser mais específica.
Ela respirou fundo, impaciente.


- Estou falando do seu pai. Do fato de você não respeitar a decisão dele.

Joguei a frigideira e a espátula na pia, fazendo um tremendo estrondo. Nesse instante 
Bobby foi correndo em sua direção para cumprimentá-la. Ela fazia carinho nele. Bem que poderia tratar as pessoa assim.

- Vem Bobby! - ele veio ao meu encontro, peguei-o e fechei-o em meu quarto. Algo me dizia que iríamos discutir e não queria que o meu bebê assiste ao espetáculo.

- Aquela loucura? - continuei a conversa - Ele não sabia o que estava fazendo.

- Claro que sabia! Ele estava lúcido.

- Ele estava com medo. Com medo de enfrentar a doença.

- Veja bem Patrícia, ele sabia que o tumor já tinha se desenvolvido bastante. Ele não quis mais fazer quimioterapias porque isso o debilitava demais. Não queria mais esse sofrimento. - ela se aproximou de mim e ameaçou me tocar, mas acho que o bom senso a fez recuar.

- O juiz assim como eu, entendeu que no momento em que ele assinou o termo de responsabilidade para não fazer mais esse tratamento, estava confuso, sensível. Mas você não entende. Sensibilidade não é o seu forte - caminhei para a sala, ela me seguiu. Quanto mais perto da porta, mais fácil era de expulsá-la.

- Engano seu. Tenho sensibilidade e respeito pelas as decisões dos outros.

- Claro que tem. É tão grande a sua sensibilidade e o seu respeito que você foi capaz de abandoná-lo quando ele mais precisou.


- Eu não o abandonei, apenas recomecei a minha vida. Não tenho culpa se você não deu rumo a sua.


- Belo jeito de dar um rumo a vida. Se envolvendo com um cara que tem idade para ser o seu filho. Você não tem vergonha de prestar esse papel de vadia?


Meu rosto ardeu. Ficamos em silêncio. Sua testa enrugou eu sabia que era sinal de que ela chegou no seu limite. O tapa foi forte, levei minha mão na bochecha esquerda e parecia que seus dedos ainda estavam ali. Doeu. Mas o peso da bofetada não foi tão grande quanto o peso da palavra "vadia". A vida inteira tentando impor seus valores, mas agia de forma contrária a eles. 
Não me arrependi. Não havia outra forma de chamar uma mulher que se comportava daquela maneira. 

- Vá embora, por favor - abri a porta da sala.

Ela saiu a passos duros, não havia mais nada a ser dito.

Deitei no sofá. Olhei para o teto. Como eu queria a minha analista ali. Não entendia o porque dela se preocupar assim. Não tinham mais vínculos, não viviam mais juntos. Para o divórcio sair era só questão de tempo.

Meu celular bipou. Quem seria? Peguei-o e vi que tinha uma mensagem de áudio no whatsapp. 

"Patrícia, cadê você? O que está fazendo? Vem pra cá aproveitar o fim de noite com a gente."

Larissa. Tinha até me esquecido da festinha que ela me convidou. Quer saber? Vou lá. Vou mostrar para minha mãe que eu tenho capacidade de recomeçar sim.


Teclei de volta pedindo o endereço. 

Passei uma maquiagem leve, coloquei um pretinho básico com um salto vermelho e pronto. Estava na hora de me socializar.

Era menos de 30 minutos da minha casa. Ela morava na Mooca, um bairro caro por sinal. 

A casa não era muito grande, mas ela tinha bom gosto para decoração. Eu ouvia vozes no fundo, deveriam estar se divertindo. Na sala tinha muitas fotos pregadas em um mural. No teto, um lustre fantástico daqueles bem clássicos. Ela usou uma estampa preta com flores brancas no papel de parede. 

- Você mora sozinha? - puxei assunto.

- Não, moro com o meu namorido. Ele está viajando para um workshop, preferi ficar - ela respondeu sorrindo. Estava bastante alegre, não sabia se era por causa da bebida porque não a conhecia intimamente - Fique aí, já volto.

Ela retornou com uma câmera Polaroid que tira fotos instantâneas.

- Sorria! - fiz com um certo esforço.

- Pronto. Daqui a pouco saberemos o resultado - ela colocou a foto ainda preta em cima da mesa de centro.

- Vodca, Whisky, ou Cerveja?

- Whisky. Puro.

- Nossa, quer ficar bêbada rapidinho é?

Seguimos para a cozinha, ela retirou a garrafa da bebida de uma balde de gelo de vidro e pegou um copo do armário. A cozinha também não era nada mal. Mas percebi que ela não teve o mesmo empenho em decorar, como na sala.

- Vamos, eles estão lá fora.



Apologia das Letras#6 Criatividade - Reaprendendo a enxergar o mundo


Enfim, chegou minha vez falar. Aqui eu deixei uma dica para você trabalhar a sua criatividade. Clique na imagem e confira

terça-feira, 25 de agosto de 2015

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Apologia das Letras#4 Como converter o seu livro


Seu livro está pronto. Sabe como converter? Não? Então confira essa dica do Elizeu Feitosa.

Apologia das Letras#3 Indicando Livros Nacionais

Que tal conferir 4 dicas bacanas da autora Camila Deus Dará de livros nacionais? Clique na imagem e confira...

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

sábado, 8 de agosto de 2015

Agridoce - Capítulo 6






Até que comandar esta dinâmica não foi nenhum sacrifício. Eu sabia que os participantes tinham aproveitado o momento para se promoverem e, é claro que eu entrei nesta onda. Afinal, ajudaria bastante a melhorar a minha imagem e consequentemente garantia o meu emprego. De fato, para trabalhar ali teríamos que nos tornar um produto. E assim como essa dinâmica, fazer  um anúncio bom o suficiente para que todos acreditassem que tínhamos uma vida "perfeita". 

Hora de finalizar.

- Muito bem, essa dinâmica foi importante para que tivéssemos uma breve oportunidade de nos conhecermos melhor. Foi interessante ver que nem todos são o que aparentam, o que mostram ser. - eu disse no centro do círculo.

- Se me permite a palavra Patrícia, gostaria de acrescentar que nós somos uma revista - Matheus levantou de sua cadeira e veio em minha direção - Cada integrante tem uma personalidade diferente e consequentemente uma forma de trabalho própria e única. A revista People's é a junção de tudo isso. Conhecer cada integrante desse projeto é também conhecer uma parte da nossa revista.

Ficamos extasiados com essas palavras. 

De pé, todos nós aplaudimos satisfeitos afinal, não é qualquer que tem esse dom de falar tão bem.

Pedi para eles me ajudarem a organizar as cadeiras da maneira que estava e, assim fizeram. Tínhamos um dia de trabalho pela frente, por isso a ajuda de todos era necessária. 

Larissa veio sorrindo em minha direção.

- Patrícia, adorei a dinâmica.

- Ah, obrigada - sorri com cortesia.

- É sério, você é bem diferente do que os outros falam - ela tocou o meu ombro.

Afastei sua mão sutilmente, não era pra tanto.

- As pessoas falam demais, se fui grossa com alguém com certeza deve ter merecido.

Ela caiu em gargalhadas. Fiquei meio sem graça, estava falando sério.

- De qualquer forma, adoro pessoas que falam a verdade na cara sem ter medo.

- Não me diga?

- Sim, é verdade. Vou fazer uma social lá no meu apê. Me passa o seu whatsapp, para eu te mandar o meu endereço.

- Desculpe, isso é um convite?

- Claro que é! Você vai né Matheus? - nem, tinha me dado conta de que ele ainda estava do meu lado.

- Nossa, assim em cima da hora. - ele soltou um sorriso carismático - Não garanto nada.

- Nem eu Adriana. Como o Matheus disse, é meio em cima da hora.

- De qualquer forma, vou ficar com os contatos de vocês. - ela insistiu tanto que acabamos trocando os números de telefone, feito isso nos despedimos e ela foi para a sua sala.



Nunca dediquei muito tempo ao whatsapp nem, facebook e nenhuma outra coisa do tipo. Apenas utilizava como outra alternativa de comunicação e para facilitar o trabalho. Não entendo como as pessoas perdiam tanto tempo com isso.


- Preciso te agradecer pela a ajuda - falei para o Matheus, sorrindo.

- Que isso, você foi ótima. Não fiz mais que minha obrigação, afinal estamos no mesmo barco.

- Mesmo assim, eu agradeço - estendi mão.

Ele aceitou meu gesto.

- Disponha. Eu ouvi falar muito sobre você Patrícia.

Olhei para o lado. Já imaginava o que deveria ser.

- Mal, como sempre. Estou acostumada.

- Na verdade, o que eu ouvi foi elogios.

- Sério? - tornei a olhá-lo, espantada.

- Claro. Gostaria muito de conhecer o seu trabalho, sua rotina. Poderíamos conversar, com mais tempo é claro.

Opa, sabia onde ele queria chegar.

- Escuta aqui. Se você acha que vou sair contigo só porque você me ajudou aqui, está muito enganado! - falei em um tom mais alto.

- Mas quem disse que eu ia convidar você para sair?! - ele mudou sua expressão, dessa vez sério. Mas manteve o seu tom - Francamente, Patrícia. 

Saiu da sala a passos duros, por sorte, tinha poucas pessoas ali. Que gafe! 

Depois do ocorrido o dia transcorreu bem. Procurei Hugo em sua sala, mas ele não estava. Queria ao menos saber o que eles disseram para ele. Porque notícias correm e deveria ter chegado em seus ouvidos. Mas não adiantava ficar imaginando coisas, melhor ir pra casa afinal não era sempre que as coisas davam certo.

Precisava comemorar. 

Cheguei em meu apartamento, abracei meu querido Bobby e tomei um delicioso banho. Liguei um som do Cazuza, e fui pegar na geladeira duas fatias de salmão.

Passei o salmão no azeite. Coloquei a frigideira untada com manteiga para esquentar no fogo alto. Depois de alguns minutos joguei o peixe nela. Acrescentei aos poucos alcaparra, sal e pimenta. Meu interfone tocou.

Deixei fritando e corri para atendê-lo.

- Alô?

- Boa Noite, só para avisar que sua mãe está subindo.

- O quê?! Eu não deixei ela subir!!

- Pensei que não tivesse problema, é a sua mãe.

- Mas que droga! - gritei com ódio.

- Desculpe, eu não...

Na verdade, ela era o meu maior problema.

Ouvi batidas na porta. O que ela queria?

- Abra Patrícia! Sei que está aí - ela gritava.

Fui obrigada a abrir, não queria escândalo. 

- Eu poderia ter ligado para avisar que vinha, mas pelo visto deve ter trocado de número - ela me disse em tom de ironia.

- Sim, eu troquei. O fato de você não ter o meu número quer dizer que eu não quero te atender.



Primeiro Capítulo
Segundo Capítulo
Terceiro Capítulo
Quarto Capítulo
Quinto Capítulo
[Continua..]

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Apologia das Letras#1 Resenha: Ninho de Fogo





Primeiro vídeo canal prontinho, clique na imagem para assistir. Resenha do Livro Ninho de Fogo de Camila Deus Dará.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Voltando...

Olá pessoal, tudo bem? Faz um mês que não publico algo por aqui. Chato né? Infelizmente, meu pai passou por problemas sérios de saúde (insuficiência cardio-respiratória) e tive que dedicar boa parte do meu tempo para ajudar em sua recuperação. O legal é que ele está bem melhor e agora posso retomar com minhas postagens e trazer mais novidades para vocês.

Estão gostando da série Agridoce? Logo, logo vou finalizar a primeira temporada e voltar com as postagens padrão do blog. Ainda não leu? Comece por aqui.

Tem mais uma novidade. Estou me aventurando na esfera dos vlogs e junto com mais 10 escritores apaixonados por literatura, construímos o canal Apologia das Letras. Lá vai ter resenhas, dicas ortográficas, notícias e muito conteúdo bacana sobre o universo literário.

Neste vídeo, a autora Camila Deus Dará faz a apresentação do canal e logo em seguida você pode conhecer os integrantes.


Inscreva-se no canal clicando aqui e não deixe de curtir nossa fanpage, é rapidinho e garanto que você não vai se arrepender.


Um grande abraço.