Agridoce - Capítulo 5







Calma. Respire fundo Patrícia. Vai dar tudo certo. Eu dizia para mim mesma mentalmente. É estranho como reagimos quando nos preparamos para algo importante. Mas eu não sabia o que sentir. Estava nervosa, com medo de rejeição, ansiosa para saber se eles iriam gostar e sem entender porque o Hugo me escolheu para fazer essa tarefa. Na empresa tinha profissionais mais capacitados para isso do que eu. Queria ele me ajudar? Ou enfatizar que eu era um desastre social?

Eu nem sabia se era isso o que eu realmente queria. Ele propôs e eu aceitei. Não tinha como voltar. Todos estavam lá e desistir iria piorar tudo, se é que tem jeito de piorar.

Todos que estavam no salão se entre olhavam com dúvidas e desconfianças. Podia-se perceber que tinha panelinhas cochichando pelos os cantos, tinha gente entediada antes mesmo de começar e tinha até gente usando o smartphone. A grande maioria estava toda dispersa.

- Gostaria de pedir um favor a vocês. Não tive tempo de organizar as cadeiras. Poderiam por gentileza pegarem cada um a sua e colocar em círculos neste espaço?

Eles fizeram que sim com a cabeça e foram se organizando. Eles se perderem um pouco. Eu observava todos atentamente. Parecia igual no tempo do colégio, quando a professora pedia para nós nos sentarmos em círculo. Mas algo tão simples, ainda tinha alguns que não conseguia fazer direito. Então, ela sempre tinha que intervir para acelerar o processo.

- Vocês podem agilizar um pouco? É que só temos 40 minutos. – disse em alto tom.

Alguns se assustaram. A situação piorou, eu me sentia em um formigueiro. Como as pessoas podem ser tão burras?

-Pessoal! – alguém do grupo gritou – vamos todos pegar as cadeiras e um a um formando o círculo neste espaço aqui.

Em seguida veio um rapaz em minha direção. Ele tinha a estatura média, pouco mais alto que eu. Tinha os cabelos raspados e usava barba por fazer. Nunca tinha reparado nele na empresa. Seria um funcionário novo? Ele usava uma camisa social azul marinho com um blazer preto e calça jeans. Não costumava muito reparar em homens. Na verdade, não reparava em quase ninguém. Mas ele era tão bonito, tão bem vestido e sua voz forte e, ao mesmo tempo gentil que chamaram a minha atenção. Concentração Patrícia! Foco.

- Se me permite, vou ajuda-los a se organizarem.

- Tudo bem.

Apenas acompanhava tudo. Ele ia orientando, posicionando e guiando cada um para que ficassem em ordem. Ele sim sabia lidar com pessoas. Melhor que os meus professores do ensino médio.

- Muito bem. Com a ajuda do...?

- Matheus – ele respondeu.

- Isso. Com a ajuda do Matheus, vocês estão sentados em círculos, que é a melhor forma de se posicionarem. Afinal, ninguém fica atrás ou escondido. Isso facilita muito no contato olho a olho.

Fui até a minha pasta e peguei um tanto razoável de folhas cortadas ao meio. Entreguei para os integrantes e pedi para irem distribuindo para o colega ao lado.

- Quero vocês se descrevam nessas folhas. Façam uma espécie de anúncio ressaltando o que vocês consideram ser as características marcantes em vocês. Como se fossem se vender. Imaginem que vocês são um produto e precisam de público para serem comprados, quais seriam os benefícios?

Um dos integrantes levantou a mão.

- Alguma dúvida?

- Devemos anotar os nomes nas folhas?

- Não, não. Entreguem suas folhas sem marcarem os nomes.

- Eu tenho uma dúvida. – outro levantou a mão.

- Como saberei o total de linhas se as folhas forem em branco?

- Imagine as linhas hora! – todos arregalaram os olhos – Quer dizer, não precisa escrever perfeito e retinho. Apenas procure escrever o máximo legível que conseguir. Esqueça as linhas.

- É propaganda pessoal, não precisa ser um testamento – Letícia deu o ar da graça, mal tinha notado sua presença lá.

Dei um sorrisinho falso.

- À medida que forem terminando me avise que eu vou recolhendo.

Minutos depois já tinha recolhido tudo. Misturei as folhas e logo em seguida redistribui-las.

- Você! – apontei para uma ruiva de pele bem clara e estatura baixa. Ela usava uma maquiagem impecável, vestia uma blusinha de manga e uma saia estilo anos 50 – Qual é o seu nome?

- Adriana.

- Qual é o seu cargo aqui?

- Designer Assistente. Você não me conhece?

- Claro que conheço! Quer dizer... Faz parte da dinâmica falar o nome e sua função entendeu?

- Ok.

- Quero que leia o anúncio que escolheu.

- Eu curto festas, baladas. Sou alto astral, gosto de me divertir e registrar momentos especiais com os meus amigos. Não dispenso uma pelada no final de semana e assistir um bom jogo na tv.

- Quem você acha que é o dono ou dona desse anúncio?

- Bom, esse é meio difícil. Os caras aqui adoram futebol.

- Eu não querida! – um rapaz meio afeminado protestou, deveria ser gay.

Todos riram.

- Eu vou chutar. Enrique?

- Alguém tem alguma ideia?

- Eu acho que é o Pablo. – um deles gritou.

- Enrique! – outro manifestou.

- Bom, que venha o dono do anúncio! – falei e aguardei ele ou ela aparecer.

Uma moça de cabelos curtos se levantou para o espanto de todos.

- Ah! É o Larissão. – um deles gritou.

Ela se vestia de forma bem feminina. Não dava para imaginar que uma moça delicada daquele jeito jogava futebol e adorava cervejinha com os amigos.

-Bom é sua vez Larissão – todos riram - Quer dizer Larissa. Qual é o seu cargo?

- Sou fotógrafa fixa.

- Pode ler o seu anúncio.

- Ok. Eu sou muito simpática. Costumo fazer amizades facilmente. Amo estar bem acompanhada. Adoro festas, reuniões entre amigos e os mais variados programas. Sempre estou de bom humor e procuro receber as pessoas com um sorriso. Eu garanto que você não vai se arrepender da minha companhia.

- Só pode ser a Letícia – deixei escapar.

- Acertou em cheio, querida. – ela se levantou.

- Espera, a mentora não pode participar ou pode? – Adriana questionou.

- Não, não posso. Desculpe, deixei escapar.

- Agora é a sua vez, Letícia.

Todos ficaram quietos. A nossa discussão deveria ser a pauta das fofocas. E com certeza todos estavam do lado dessa loira ridícula. Mas não vou deixar tudo ir por água abaixo. Vou ficar sob controle.

- Não vai perguntar o meu cargo – ela me encarou com um olhar desafiador.

- Claro, qual é o seu cargo, Letícia?

- Sou Gerente de Comunicação.

- Pode ler o seu anúncio, por gentileza?

- Sou claro e objetivo. Prezo pela qualidade, honestidade e senso de equipe. Curto os mais variados tipos de programas: sair para bares, festas ou ficar em casa. Estou sempre preparado para o novo. O desafio me intriga. O novo me fascina.

- Uau! – alguém deixou escapar.

Todos ficaram espantados com o texto. Quem seria o autor daquilo? Bom, eu poderia prever mentalmente que era o Matheus.

- Esse é difícil. Mas eu arrisco um palpite. Conheço todos aqui. Mas nenhum dos que estão se encaixam nessa descrição tão elegante. Acredito que seja o novato. Matheus?

Ele se levantou sorrindo.

- Você analisa bem as pessoas Letícia.

- Um pouco, faz parte do meu trabalho lidar com elas. - Ela me olhou de soslaio e eu percebi.

- Eu tenho certeza que faz isso muito bem.

Ela sorriu como se fosse uma garota boba de 15 anos. Não acredito que iria surgir um clima ali. Um homem desse naipe, dar em cima dessa miss simpatia.

Os homens são todos iguais mesmo.

- Bem, todos conhecem o meu nome. Mas como eu entrei recentemente, ainda não definiram o meu cargo exatamente. Mas devo ficar aqui no departamento de arte. Meu anúncio diz: gosto de praticar atividades físicas (futebol, vôlei, natação e muay thai). Meu passa-tempo predileto é desenhar, desde adolescente desenhava mangás, rostos, carros e tudo que me passava pela a cabeça. Sou muito caseiro e quando saio gosto de lugares quietos, que de preferência toquem Reggae. Não decorei o nome de todos ainda. Mas acredito que seja o amigão ali.

Ele se aproximou de um cara negro, magro e usando dreadlocks.

Ele se levantou sorrindo.

- Sinto lhe desapontar. Mas eu detesto Reggae. Ta me tirando só porque sou preto?

Todos riram. Pensei que poderia ter sido pior mas todos estavam se divertindo. O interessante era que eles não se conheciam tão bem assim. E eu não conhecia ninguém. Valeria a pena navegar no mundo deles? É que no começo de qualquer relação tudo é maravilhoso. As pessoas mostram o seu melhor, como nesses anúncios. Mas elas guardam o pior para quando já nos envolvemos, quando já confiamos. É como o mar, pode até ter uma maré gostosa mas a tempestade pode surgir quando menos se espera.


Comentários

  1. Gostei da dinâmica. :D Continuo intrigada sobre os motivos de a Patrícia ser do jeito que é. Até mais!

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  2. Olá,
    Fui ler o texto, mas percebi que tinha que ler os anteriores a ele, vou voltar e procurar os outros.
    Beijos.
    Memórias de Leitura - memorias-de-leitura.blogspot.com

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  3. Estou gostando do desenvolvimento da narrativa. Está ficando ótimo.


    Desbrava(dores) de livros - Participe do nosso top comentarista de julho. Serão dois vencedores.

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