Agridoce - Capítulo 4





As portas do elevador se abriram. Ela colocou sua mão em minhas costas e foi me guiando até a saída. Passamos pelo o porteiro que estavam com um olhar espantado. Deveria ter visto a confusão pelas as câmeras de segurança.



- Está tudo bem? – ele perguntou sem jeito.


- Claro – ela respondeu sorrindo – elas já se desculparam e eu estou a levando para casa. Você sabe como é né... Duas mulheres de TPM se estranhando.

Ele acionou o botão que destravou a porta da entrada principal.

- Escute aqui. Todos nós passamos por situações difíceis. Eu sei que é difícil para você se abrir agora, mas não ignore suas emoções. É bem melhor você desabafar comigo do que descarregar tudo em uma adolescentezinha mimada.

Não contive o riso. Ela percebeu e esboçou mais alegria ainda.

- Obrigada – foi única palavra que consegui dizer naquele momento.

- Volte quando estiver preparada.

O estacionamento do prédio ficava bem em frente a porta principal. O que eu achava estranho no começo porque estava acostumada a deixar meu carro em lugares onde já tinha um estacionamento subterrâneo.

Entregamos os nossos cartões ao jovem que estava em uma espécie de guarita e fomos até nossos respectivos carros.

Eu precisava relaxar, quer dizer, cozinhar.

Telefonei para a enfermeira e conectei o viva voz no autofalante do meu carro.

- Alô? –ela atendeu no primeiro toque.

-Boa Noite.

- Boa... Noite – porque quando eu falo bom dia ou boa noite as pessoas respondem desconfiadas?

- Como papai está?

- Ele está bem. É um senhor muito adorável. Ele pergunta por uma moça linda que sempre vai visitar ele. Você conhece?

- Conheço. Fala para ele que a moça linda aparecerá no sábado.

- Ok.

- Não esqueça que ele é sensível ao vento, por isso o cubra com o cobertor de lã. Ele detesta edredons. Mantenha sempre as janelas fechadas. Coloque meias nele, porque ele sente muito frio nos pés...

- E não se esquecer do chocolate quente com canela que ele tanto ama tomar antes de dormir. – confie em mim, está tudo tranquilo.

- Obrigada, boa noite.

- Boa... – desliguei o celular

Parei no semáforo, estava vermelho.



Eu estava sentada em meu quarto esperando meu pai vir com uma grande xícara de chocolate quente com canela pronto para me contar uma história. Mas eu ouvia apenas gritos abafados. Decidi levantar e ver de onde eles vinham. Era do quarto de meus pais.

- Quando você pretendia me contar isso?! – minha mãe gritava furiosa.

- Quando eu estivesse preparado! – meu pai respondia no mesmo tom.

- Não sabia que as pessoas se preparavam para o câncer.

- Por que você é sempre ríspida e amarga?

- E porque você é sempre tão condescendente?

- Tá vendo? É por isso que não conto. Sua reação seria essa. – ele colocava a mão cabeça e andava círculos, sempre fazia isso quando estava nervoso.

- E achou que eu não iria descobrir? Acha que nunca iria parar em uma cama de um hospital?

- Pelo menos em uma cama de hospital eu poderia ser sedado e não me importaria com os seus escândalos. Sua louca!

- Como sempre, você só se preocupa com o próprio nariz.

- Eu?! Escuta aqui, eu estava processando toda essa informação porque mal sabia que esse tumor é um defeito genético e é hereditário!

Eu observava tudo pela fresta da porta do quarto deles. Tinha só 10 anos, mal sabia o significado da palavra hereditário.

- Eu levei a Pati ao médico e paguei caro para fazermos o mapeamento genético. Ela tem oitenta por cento de chance de desenvolver. Por favor, me ensine contar isso a uma mulher histérica e a uma criança de dez anos!

Ela se calou. Ficou sem resposta. Minha mãe sempre foi assim exigente e autoritária. O oposto de meu pai: meigo, carinhoso, gentil, paciente... E ele sempre a desarmava com elegância.

- Eu.. eu não sabia...

- Agora sabe. Em momento nenhum você se colocou em meu lugar. Acha que é fácil dar uma notícia dessas a minha família? A notícia de que eu vou morrer?

- Também não é assim. Há centenas de tratamentos alternativos. Isso caso as quimioterapias não funcionem.

- Você não sabe. Você não é médica! E o tumor já está em estágio avançado.

Esbarrei na porta sem querer ela chiou. Eles perceberam que eu ouvia tudo. Corri para o meu quarto chorando. Meu pai veio atrás de mim. Minha mãe apenas me observava pela a porta

- Que foi minha linda? Por que você chora tanto?

- Promete para mim que você nunca vai morrer – afundei meu rosto naquele enorme cobertor de lã.

- Querida...

- Promete pai!

- Eu prometo. Eu prometo que nunca vou te deixar.

Respirei mais aliviada.

- Então, sabe que hora é agora?

- Não. – fingi que não sabia.

- É hora de chocolate.

- Uhul!!!! E história!

Ele olhou para minha mãe. Ela ergueu a sobrancelha.

- Vou buscar para vocês – saiu do quarto.

- Não esqueça a canela! – nós rimos juntos – Ela sempre esquece.

De repente ouvi várias buzinas. Quando percebi, ainda estava parada no trânsito. Aquelas pessoas me xingavam insanamente. Eu sequer tinha energia para responder. Apenas segui rumo ao meu apartamento.

Em fim, cheguei em meu cantinho. Mal sabia o que cozinhar. Já passava das 22 horas.

Abri a geladeira, peguei um tomate, mussarela, presunto e cheiro verde. Piquei tudo bem pequeninho e fui recheando dois pães amanhecidos. Temperei com sal, pimenta e orégano para depois coloca-los no microondas. Pronto estava feito meu lanche. Não tinha forças para cozinhar, o dia tinha sido tenso demais. Fiz um suco artificial, daqueles que você só mistura o pó na água e está tudo certo. Tomei mais remedinhos e desmaiei.

Passaram-se alguns dias. Na medida do possível correu tudo bem. Eu tentando ser simpática e as pessoas me evitando, como sempre. Enfim, chegou o dia da dinâmica. Era a minha chance de provar que eu me tornei social.



Eu fui a primeira a chegar no salão de eventos, no quarto andar. Utilizávamos para grandes reuniões, pequenos eventos, dinâmicas e comunicados. Estava um pouco nervosa.

Não deveria durar muito, como era em horário de expediente não poderia interferir no andamento da revista. Em minutos o salão ficou cheio. Bem, era hora de começar.

- Bom dia.

- Bom dia – eles responderam sem muito ânimo.


Primeiro Capítulo
Segundo Capítulo
Terceiro Capítulo
[Continua...]

Comentários

  1. Pobre menina! Chance de 80% de desenvolver um câncer... não é brinquedo não... :(
    (Será que ela se cuida? Faz exames preventivos?) Espero que a dinâmica transcorra muito bem para ela. (Será que ela não vai perder a calma em algum momento?) Quanta expectativa!

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    1. Câncer é uma barra né, mas tenho certeza que vou reservar muitas emoções para a Patrícia. Obrigado por acompanhar :)

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  2. Muito boa história, adoro ler novidades de autores novos ou se aventurando como novos escritores, dou total apoio

    Daily of Books

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    Respostas
    1. Obrigado Fernanda, fico feliz que você esteja gostando. Quem sabe um dia você resenha um livro meu? hehe

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  3. OI Beto..
    Fiquei meio perdida, acho que porque não acompanhei os outros textos.
    Mas a escrita esta ótima. É você quem está escrevendo mesmo?

    livrosvamosdevoralos.blogspot.com.br

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    1. Que bom que você gostou, desculpe não organizar os capítulos. Agora, no final de cada capítulo você tem um link que redireciona para outros. Ou lá em cima, onde tem as abas,você pode clicar em Agridoce e aí abre uma lista com eles. Obrigado por ler :)

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