Agridoce - Capítulo 3






- Imagina só que cena lastimável. Eu, no corredor discutindo com a Letícia como se fôssemos duas garotas de 15 anos brigando no pátio de um colégio. O pior de tudo era ver a cara de todos, mais uma vez, me chamando mentalmente de bruxa. Hoje, com certeza foi um péssimo dia. – Falei tudo isso deitada em um divã na sala da minha terapeuta. 


A maior parte do tempo eu encarava o teto, o que me irritava as vezes. Sempre preferi conversar olhando nos olhos, mas ela me garantia que era melhor assim.

O consultório era agradável, bem decorado, tinha umas plantas médias que eu não conhecia em vasos lindos. Tudo era impecável: as cortinas, a mesa e a sala era tão iluminadas que eu parecia estar no céu. Um falso céu porque minha vida estava um verdadeiro inferno.

- E então Lúcia? Não vai dizer nada? – ela era baixa, tinha cabelos curtos e usava óculos quadrado enorme para o rosto dela. Sua voz era serena. Até demais. Isso me irritava.

- O que você quer que eu diga?

- Alguma coisa – sentei-me no móvel e a encarei – Você tem que me falar o que eu faço para não perder o meu emprego. Eu te pago pra isso! E pago caro!

- Veja bem Patrícia – ela respondeu calmamente - Tem coisas em sua mente que precisam ser esclarecidas.

- Que coisas? – interrompi já sem paciência – A única coisa que eu quero é trabalhar em paz.

- Patrícia, tem certeza que é isso o que você realmente quer? Você precisa ser sincera comigo e principalmente consigo mesma.

Levantei com raiva. Depois de ter brigado com a Letícia estava eu brigando com a minha terapeuta.

- Escuta aqui. Eu pago para você para melhorar a minha vida e você me chama de mentirosa?! Eu estou cercada de pessoas incompetentes.

- Patricia... – ela tenta tocar o meu ombro, mas não ela não deixa.

-Olha sua terapeutazinha de quinta. Já superei muita coisa em minha vida. Já superei traição de um cafajeste, já aceitei que o meu pai vai morrer e se perder esse emprego arrumarei outro melhor. Eu posso superar tudo!

- Superar ou ignorar?

-SU-PE-RAR e muito bem superado. Prova é que estou com uma vida totalmente renovada, o único problema é essa droga de emprego.

- Se é uma droga, por que você quer tanto ser aceita?

- Porque eu não quero acabar com a minha carreira de designer logo no início.

- Eu acho que você não quer é acabar com a sua vida.

- Minha vida é perfeita, tudo sob controle. Eu nem sei porque eu estou aqui te dando ouvidos. Vou procurar uma profissional melhor que você.

Peguei minha bolsa e fui em direção a porta.

- Procure outra terapeuta, ou um psicólogo e eles vão lhe dizer a mesma coisa. Você não vai conseguir fugir disso para sempre Patrícia.

Sai da sala e bati a porta. Chega de lorotas. Chega de rodeios. Eu só queria uma solução prática mas só estou afundando. E quem ela pensa que é para me dizer que isso vai me perseguir para sempre? Tudo agora é passado. Já aprendi que não posso confiar em ninguém. Ninguém mesmo. Nem em terapeutas. Ah! Como eu odeio pessoas.

Peguei o elevador, tinha uma senhora e uma jovem já lá dentro. Elas deveriam ir parar no térreo também, afinal não tinha nenhum botão acionado. A adolescente aparentava ter uns 15 anos. Parecia estar enfeitiçada pelo o seu smartphone. Ah! Como eu detesto arborrescentes! A senhora sorriu para mim, não consegui sorrir de volta. Estava estressada de mais pra isso, apenas acenei com a cabeça.

- Como esse prédio é grande né moça?

- Sim, deve ter uns 20 andares.

- Não incomode a moça vovó.

- A única coisa que me incomoda é ouvir o som do teclado do seu smartphone. Querida, você conhece o modo silencioso?

- Ela me olhou espantada e em seguida olhou para o led que marca o andares.

- Droga estamos descendo!

O elevador parou no térreo. A senhora se despediu de mim e assim que sai do elevador ouvi uns gritos.

- Sua débil mental! Não sabe nem apertar o botão de um elevador. Eu mandei você apertar o 16.

- Eu esqueci...

- Nossa mas até disso você esquece.

Aquilo me deixou furiosa. Quem aquela pirralha pensa que é para falar assim com a própria avó. Voltei correndo para o elevador e segurei a porta antes que ela fechasse.

- Querida você tem dicionário em casa? Por que eu acho que você não sabe o significado da palavra demência.

Ela permaneceu calada.

- Demência quer dizer perda da capacidade cerebral de uma pessoa que ama, ou deveria amar. Não acredito que seja o seu caso. Mas para a sua informação, eu garanto que essa “débil mental” ajudou muito na sua criação e te paparicou bastante para você se tornar mimada e mal criada.

O elevador já estava subindo

- Hei! Não se meta! Você não tem nada com isso!

- Por favor, parem de brigar – a senhora implorava sem graça.

- Pede desculpas a ela! –puxei-a pelo o braço.

- Para! Você está me machucando!

- Não se incomode com isso minha filha, ela não falou por mal...

- Me solta! – apertava o braço dela mais forte ainda.

De repente a porta do elevador abriu. Era a terapeuta.

- O que está acontecendo aqui?! – ela chegou já me separando Patrícia da garota.

- Estava ensinando bons modos a essa ingrata – falei zangada.

- Essa mulher é louca! Temos que chamar a polícia para ela.

- Calma, não é necessário. Tenho certeza que todas estavam com os nervos a flor da pele e vão se desculpar civilizadamente. Não é mesmo Patrícia?

- Pede desculpas a sua avó.

- Desculpa vó. – ela respondeu descontente.

O elevador chegou no décimo sexto andar.

- Agora peça desculpas as duas Patrícia.


- Não precisa - a senhora sorriu amarelo.

- Mas eu não fiz nada. Apenas defendi esta senhora.

- Por favor.

-Desculpe - eu precisava parecer normal, afinal só iria comprovar a tese da terapeuta.

- Até mais moça, acalme-se que tudo dará certo. Fiquem com Deus. – ela falou já de fora do elevador.

As portas se fecharam se quem que eu pudesse pensar em uma resposta. Apertei novamente o botão do térreo.

- Seu pai tem ou tinha algum tipo de doença degenerativa? – a terapeuta me perguntou.

- Câncer.


Primeiro Capítulo
Segundo Capítulo
[Continua...]

Comentários

  1. Está esquentando! Estou vendo a hora em que a Patrícia vai ter um surto! Grandes emoções estão por vir! Aguardando ansiosamente. :)

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    1. Que legal, fico feliz que você esteja ansiosa, vou acelerar as postagens para compensar o tempo que fiquei sem internet.

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  2. O pior de tudo é isso: quando a pessoa nem ao menos consegue admitir para si mesma que tem um problema e que precisa de ajuda... quando será que esse momento vai chegar para ela?

    Demorei para ler esse capítulo, hein hahaha.

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    1. Ihh mas vai demorar ela acordar kkkkk Essas mudanças elas tendem a serem graduais. Bom, já que você tocou no assunto demorou mesmo haha até assustei, mas o importante é que leu.

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