sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Dias Iguais - Sandy participação Nerina Pallot

E aí pessoal?



Esta é a minha música predileta do álbum Manuscrito, de Sandy. Ele dá início a uma fase bem mais intimista, trazendo músicas que refletem a personalidade e as vivências da cantora. Como gosto muito desse trabalho dela, separei essa música para mostrar a vocês a minha visão sobre a letra e os sentimentos que ela desperta em mim.


Dias Iguais



A música abre com o lindo solo de piano mostrando suas delicadas notas, assim como a voz das cantoras.


Pode variar conforme a região e época do ano,  o céu vermelho me remete ao amanhecer, as coisas que esperamos ao acordar.
Ao se cobrir de azul, o dia já se iniciou.
Mesmo estando longe, ela sente o respirar de quem ela estava aguardando.


O dia se cobriu de frio, se tornou mais triste.
Aparece o Bem-te-vi. Ela o vê cantar e reflete sobre sua vida. O pássaro canta e a observa tentando esconder o seu choro, a sua solidão.

Agora, o belo refrão:

A narradora passa por dias de marasmo, dias de tristeza. O que restou para ela foi sofrer contemplando a natureza.

Com vocês, não menos importante, Nerina Pallot:


Nas mais solitárias horas da noite
Eu desenhei o céu ao meu redor
Nas horas em que a luz desaparecia
Eu apenas sonhava e esperava por você


E como um rouxinol
Meu coração partido poderia cantar
Por essas gotas amargas
E asas quebradas

Aqui percebo que se trata de outra pessoa, ao meu ver a que a primeira narradora estava esperando. Mas, ao contrário dela, sente sua falta durante suas noites agoniantes e depressivas.





Dia após dia
De cores infinitas
Estas horas intermináveis
Eu contemplei
Dia após dia
É como um rio congelado
Onde o tempo permanece

Eu sento e espero

Assim como no primeiro refrão, a narradora sofre com seus dias metódicos, de agonia e solidão. Então, resta a ela
apenas contemplar o rio que assim como a sua vida, está congelado.

A música se desenvolve com o restante da banda e temos então a fusão da voz das cantoras, que demonstra todo o sofrimento contido na saudade entre as personagens.

Por fim, a repetição do refrão inicial finaliza esta fantástica canção.



E aí? Gostou da música? Então comente. Qual foi a sensação e o sentimento que ela despertou em você? Eu gostaria muito de saber. Tem outra opinião? Ah, não gostou? Comente assim mesmo, adoro ver ideias e gostos diferentes.

Até mais.

P.S. Detesto o uso de featuring na língua portuguesa, pessoal a palavra PARTICIPAÇÃO existe no nosso dicionário, tá.



terça-feira, 8 de dezembro de 2015

1989 repaginado

E ai pessoal?

Já faz um tempinho que eu não falo sobre música, não é?

Hoje vou indicar um cover bem bacana do álbum 1989, de Taylor Swift:


Quem não se lembra do álbum Red, onde a antiga princesinha do country já caminhava timidamente pelo o universo pop? (Ouça: I Knew You Were Trouble e We Are Never Ever Getting Back).
A experiência foi tão positiva que o disco seguinte focou 100% no estilo. Sucesso de vendas, ela mostrou a sua versalidade e capacidade de se reinventar.

Porém, no post de hoje vou mostrar uma versão alternativa do 1989, voltada para o folk e completamente recriada por Ryan Adams.

Sim, é Ryan mesmo  (muita gente confunde com o Bryan Adam). Ele já participou de 2 bandas de rock que infelizmente não deram certo. Então a partir de 2000, assumiu carreira solo. Atualmente, com 41 anos é casado com a cantora Mandy Moore.



Aqui troca-se o vocal e as batidas energéticas de Swift, por uma versão tranquila e bem mais intimista. Em vários momentos, não acreditei que se tratava da mesma música. Os arranjos tem também influência do rock e country. Outra coisa legal é que ele tornou o cantor mais conhecido e está fazendo tanto sucesso quanto o original.

Chega de enrolação né, vou deixar um vídeo da música original e a versão do Ryan Adams embaixo. Espero que gostem, assim como eu gostei:


                                                                        
 Style






Blank Space





Apresentação ao vivo


Bad Blood





Wildest Dreams




Welcome to New York




Mais um ao vivo

Out of the woods





Shake it off






E aí, o que vocês acharam? Essa foi apenas uma amostra do trabalho do Ryan Adams, se vocês assim como eu gostam de ouvir músicas em novas roupagens eu deixo essa dica. 

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

TAG: 8 Coisas

O Blog Jovem Jornalista me convidou para responder a TAG 8 Coisas. E como sabem, TAGs acabam servindo para nos conhecermos melhor.

Confira Abaixo:


8 coisas para fazer antes de morrer

- Publicar livros.
- Conhecer outras regiões do Brasil.
- Viajar para o exterior.
- Conhecer meus amigos virtuais.
- Aprender a cozinhar bem.
- Falar mais 2 línguas fluentemente.
- Divulgar minhas ideias.
- Ser ativista em algo.


8 coisas que amo

- Saborear alimentos
- Escrever
- Estar com quem eu amo
- Ouvir músicas
- Fazer Exercícios
- Cantar
- Assistir filmes
- Jogar lol


8 coisas que eu falo

- "Uai".
- "Vam'bora".
- "Vixe".
- "Nossa Senhora!".
- "Procê vê".
- "Trem doido esse".
- "Quê qué isso?".
- "Puts".


8 roupas

- Tênis
- Sapatênis
- Camisa social
- Camisa Polo
- Jaqueta
- Bermuda
- Bota
- Camisa jeans


8 coisas/objetos que não vivo sem

- Deus
- Celular
- Fones de ouvido
- Notebook
- Bicicleta
- Arte
- Livros


8 pessoas para responder essa TAG

Balaio de Babados

Espero que tenham gostado das respostas, em breve terá mais postagens para vocês.

Até a próxima.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Eu assisti: Que horas ela Volta?




Eu sou apaixonado pelo o cinema nacional e, por ter visto vários filmes do segmento, constatei que grande parte deles retratam a realidade do nosso país - logicamente, estou excluindo dessa lista as comédias, que ocupam um espaço gigantesco nas salas.

A princípio, percebi que muito se falava (e fala) sobre o "Que horas ela volta?" e confesso que mesmo sendo elogiado por boa parte dos críticos, esperava encontrar um drama pesado.



Mas ainda bem que tive essa expectativa quebrada. Fui apresentado à Val, que é deliciosamente interpretada por Regina Casé. 

A premissa é relativamente simples. Val tomou a decisão de deixar a sua filha, Jéssica, sendo criada por outra pessoa em sua terra natal (Pernambuco) e, com o intuito de proporcionar uma vida melhor a ela, mudou-se para São Paulo. Lá, ela trabalha como empregada doméstica para Bárbara (Karine Teles) e Carlos (Lourenço Mutarelli).

"Que horas ela volta" logo no começo já dita o tom da relação entre Val e Fabinho (Michel Joelsas), que é bem mais intenso do que a que ele tem com a sua mãe - muito frequente entre domésticas e filhos de patroas. O assunto da terceirização da maternidade é tocado em várias partes do filme de maneira muito eficaz e sem ser melodramática.




Perto do vestibular da maior faculdade de arquitetura do Brasil: a FAU, Jéssica pede para ficar na casa da mãe apenas para fazer a prova. Val, enxerga neste pedido a oportunidade de estreitar o relacionamento com a sua filha.

Ao chegar de viagem, ela se depara com uma realidade na qual não acredita: sua mãe mora no serviço e, quando ela conhece a dita "família", nota-se que não concorda com a forma que a Val é tratada ali como uma cidadã de segunda classe. 


Surge então um conflito que escancara as diferentes formas de pensar dessas mulheres. Se por um lado temos a postura submissa e conformista da doméstica que nasceu sabendo o seu lugar. Por outro, temos uma jovem questionadora que tenta a todo custo se nivelar socialmente, não admitindo ser tratada como inferior. Não poderia deixar mencionar o despreparo da socialyte em lidar com as pessoas que subiram um degrau social e conseguem ter acesso a muito mais recursos do que as gerações anteriores.




Outro problema interessante é a depressão que o arquiteto Carlos passa, explicitando a artificialidade daquela organização familiar. Ele acaba se identificando com a jovem, tanto por ela querer seguir a área que ele trabalha, quanto por suas ideias visionárias. 

Inclusive é interessante o contraponto da patroa que se incomoda com essa pequena revolução provocada dentro de sua casa.

O legal de tudo é que o filme acerta na simplicidade e na leveza. Primeiro, por conta da atuação divertida e real de Casé, que constrói um humor nada caricato. Depois, temos a dinâmica dos diálogos e gestos sutis entre a doméstica e os patrões. Trata-se de uma forma educada de humilhar a pessoa.

Na tradicional frase "Ela  é praticamente da família"  , onde esse  "praticamente"  tem o poder de definir que seu lugar é da cozinha para os fundos.


Em termos técnicos não sou especialista, mas posso dizer que tudo ali tem uma função. O silêncio em muitos momentos, nos induz a refletir. Os cenários, os figurinos e até mesmo os objetos tem significados específicos nas cenas e ajudam a contar melhor a história (vide piscina, jogo de xícaras, a bandeja antiga, entre outros).
A trilha sonora, caracteriza e mostra os gostos dos personagens. A própria escolha na posição das câmeras, como a de, inicialmente, concentrar as tomadas a partir da cozinha e das áreas de serviço, mostrando o mundo da Val. Depois, expandindo o espaço físico à medida que a Jéssica explora os outros cômodos da casa. 

Eu poderia escrever um texto imenso marcando pontos que gostei, mas por hora quero só indicar esse filme maravilhoso que espero que trague ainda mais prêmios para o Brasil.



E você? Já assistiu? Se sim comente abaixo o que achou.

Até a próxima pessoal.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Efeito Reverso



Faz quatro anos que eu malho e confesso que já obtive ótimos resultados. As minas se amarram no meu peitoral volumoso que quase rasga as minhas camisetas. Ficam loucas com os meus braços gigantes e não preciso nem de falar do meu tanquinho.

Treino seis dias por semana e, se a academia funcionasse aos domingos, treinaria sete. Considero-a como a minha segunda casa. Como ela fica perto da minha residência, dá para ir a pé. Costumo encontrar com Fábio uma quadra antes dela, ele também não mora longe.

- E aí, cara, beleza? – eu o cumprimento com um leve toque, de punho fechado.

- Tudo beleza. e você, Marcelão? – ele sorri e continuamos a caminhar rumo ao nosso destino.

- Tudo ótimo. E aí? Vai sair dos 50 quilos no supino hoje ou vai continuar sendo frango?

- Cara, eu não sou igual a você. Vou demorar te alcançar ainda.

- Frouxo.

- Vai à merda!



Sete da noite é o nosso horário. Sei que é lotado e gosto disso. Rimos dos frangos que fazem tudo errado. Trocamos ideia com os outros marombas. E não posso deixar de falar o principal: apreciamos os corpos das gostosas.

Passamos pela catraca, damos uma volta pelo ambiente , cumprimentando nossos brothers , para depois começar o nosso treino.

Fábio começa a montar seus pesos na barra do supino. Como sempre, 50 quilos.

- Cara, vou colocar mais um pouco – disse com as anilhas na mão.

- Hei, pode tirar! – ele adverte enquanto termina de colocar os seus pesos.

- São só dez.

- Eu quase morro para levantar isso e você vai colocar mais? – deita no banco.

- Relaxa, eu te ajudo – não os tiro.

- Tá bom, mas ajuda mesmo.

Ele pega na barra e começa a fazer o exercício com muito esforço, mas consegue finalizar. É minha vez. Acrescento mais 20 quilos e executo a minha tarefa com êxito. Retiro os pesos e o observo executar a sua. Desvio o olhar por alguns instantes para seção dos aparelhos de pernas e uma belíssima mulher, novamente, me chama a atenção.

- Hei! Ajuda... aqui – Fábio não consegue mais completar o movimento de levantar a barra, então eu o ajudo – Nossa, estava olhando o quê?

- Aquela princesa ali. – eu aponto para uma linda morena, de cabelos lisos, pernas torneadas e curvas estonteantes.

- Ela de novo? Cara, você não cansa de levar fora?

- Fora? Ela faz charme. Tenho certeza que está louca para dar uns amassos.

- É sério. A moça já te falou que não quer nada, vai acabar reclamando de você na recepção.

- Fica na sua. Espera, ela está vindo para cá. – imediatamente, coloco mais peso na barra e deito no banco. Percebo que ela passa por nós e deixa um delicioso aroma adocicado. Como eu gostaria de sentir mais de perto. Começo a minha série com muita dificuldade. Grito para impressioná-la - mulheres se amarram nisso - e quase derrubo a sobre meu peito. Levanto com os braços queimando e percebo que ela só passou por ali para pegar uma barra para fazer agachamento. Droga.

Fábio cai em gargalhadas.

- É sério, parte para outra. Essa não quer você.

Dou um soco em seu ombro, ele geme.

Assim que terminamos nossa série de supino, passamos para um banco mais próximo da minha presa. Utilizaremos alteres ,dessa vez , no crucifixo.

- Apenas observe – vou em direção à minha presa.

Ela executa o agachamento. Percebo que usa uma camisa regata cavada que deixa aparecer uma tatuagem diferente em suas costas. É uma espécie de mapa de uma constelação junto com vários símbolos, consigo reconhecer o pentagrama.

- É melhor eu te ajudar, esse exercício é difícil.

- Obrigada, mas já estou acostumada. Não se preocupe... se precisar de ajuda... chamo os instrutores – ela fala, buscando fôlego.

Eu decido arriscar e chego por trás dela. Ela me nota pelo reflexo do espelho.

- Você de novo?! Não se cansa de levar toco? – Ela para de fazer agachamentos.

- Calma, só queria te ajudar – dou um passo para trás.

- Já disse que não preciso de ajuda. Vou reclamar de você na gerência – ela aumenta o tom de voz.

- Tá bom, não pense que desisti – eu a provoco.

- Você não sabe com quem está mexendo, seu imbecil – ela me lança um olhar ameaçador. Sinto-me angustiado no momento em que profere essas palavras. Nunca tive essa sensação. Já senti medo algumas vezes, mas uma pessoa nunca me intimidou a ponto de me gelar o estômago. Meu corpo estremece por alguns segundos e sei que essa tensão não é por conta dos exercícios.

Aquela frase não sai da minha cabeça. O que uma mulher tão linda e tão delicada poderia fazer comigo? Será que ela namora um traficante, bandido ou alguém que possa vir a acabar com a minha vida?

Quer saber? Não vou ceder. Estou com mais vontade ainda de conhecê-la.

- Deixa eu adivinhar: levou outro fora né? – Fábio se aproxima de mim.

- Não enche! – olho ao meu redor , procurando-a, mas parece que ela desapareceu.

- Onde ela foi? – ele faz o mesmo que eu.

- Não sei. Deve ter ido embora.

- Impossível. Eu observei vocês o tempo todo. Desviei o olhar por alguns segundos e ela não estava mais ali – ele olha em direção à recepção . – Eu teria visto ela passar pela a saída.

- Que estranho...

- Muito estranho. Já sei o que vou fazer.

- Deixa ela para lá.

- Eu aposto com você que eu cato ela de jeito.

Ele retoma o treino , já desacreditando do meu objetivo. Na recepção, inicio conversa com o Paulão.

- E aí cara, beleza?

- Tudo ótimo – ele sorri . – Malhando pesado?

- Sempre, né? Cara, preciso de um favor seu.

- Diga.

- Sabe aquela novata bonitona que entrou faz uns 15 dias?

- Tem um monte de novata bonitona aqui, você tem que ser mais específico.

- A que tem tatuagem de estrelas e um monte de sinais no ombro.

- Ah sim. Sei. A da tatuagem de bruxa. Linda de morrer. Não vai me dizer que está a fim dela, ela é muito estranha – capto sua inquietação.

- Sério que você acredita em bruxaria? Você mesmo admitiu que ela é maravilhosa.

- Eu sei. Quer um conselho? – ele passa a me fitar firmemente - Procure outra. Mulher bonita tem aos montes por aí. Esse negócio de ocultismo não é comigo não.

- Deixa de bobagem. Já conheci pessoas que veneram esses símbolos, não tem nada demais. Me passa o endereço dela vai. Quebra esse galho.

Ele pensa por alguns instantes, digita algo no computador, anota em um papel e depois me entrega.

- Cuidado.

- Relaxa – eu toco em seu ombro e dou um leve sorriso.

- E não vai ferrar com o meu emprego – ele fala enquanto eu já estou de costas, indo rumo ao Fábio.

- O que é isso? – Fábio se aproxima de mim.

- O endereço da Valéria.

- Não acredito – ele leva as mãos na cabeça, atônito.

No dia seguinte, acordo bem cedo para achar a casa do meu sonho de consumo. Eu começo a trabalhar numa loja de suplementos às nove da manhã, então tenho duas horas para encontrar a casa dela. Tiro minha moto da garagem e digito o endereço no GPS do meu celular. O lugar fica a cinquenta minutos de onde estou.

O frio na barriga reaparece. Respiro fundo, coloco meu capacete e acelero meu veículo.



Paro exatamente onde o dispositivo me guia.



Desço da moto e lanço um olhar panorâmico no local. De cara, noto que a casa se destoa das outras vizinhas pois não é murada, possui janelas pequenas e arredondadas, além de ter um telhado triangular. Pintada de um amarelo vívido tem se a sensação de que ela se ascende quando a luz do sol chega à suas paredes. Sem falar de sua entrada que é revestida por um belíssimo gramado.







Bom, já sei onde ela mora. Hora de ir para o trabalho. Viro-me em direção a minha moto e, de repente, alguém surge bem na minha frente.



Valéria.

- Como você apareceu aqui?! – eu pergunto atônito.

- Tenho meus métodos. Eu cansei de você. Cansei de ser assediada – ela se aproxima de mim.



- Eu já estou indo embora, não precisa chamar a polícia.



- Quem falou em polícia?



O que ela quer dizer com isso? Não entendo. Será que ela vai chamar uns caras para me espancar? Droga, tenho que ir embora.



Ela permanece me encarando fixamente, nesse instante uma forte ventania toma conta do local. Olho para o céu e noto que o tempo fechou instantaneamente. Engulo em seco. Merda, onde estou me metendo?



- Tudo bem, eu vou embora – falo tremendo e já subindo na moto.



- Você teve a sua chance. Agora vai arcar com as consequências, seu cafajeste!

Quase não a ouço praguejar. Meu objetivo é sair de perto dela o mais rápido possível.

Chega. Acabou a brincadeira.

Não sei o que aquela mulher é, mas quero distância dela. Definitivamente ela não é para mim. Olho o relógio e percebo que estou atrasado para o trabalho. Não dá tempo de me trocar. Decido ir direto.

Já na porta, noto que um homem começou a me fitar. A princípio, penso que não passa de um cliente, mas ele não entra para comprar.

- Algum problema, amigo?

- Só estou admirando a sua beleza, gata. Bem que você poderia usar umas roupas mais coladas.

- Tá maluco, meu irmão? Vaza daqui! – parto para cima dele, mas ele se esquiva.

- Foi só uma brincadeira. Ô louco, que mulher brava.

Mulher? Como assim? Neste instante, eu me lembro das palavras de Valéria. Não pode ser! Percebo que minhas roupas estão maiores que o normal. Abro a loja rapidamente e corro para o banheiro. Debruçado na pia, recolho forças para me encarar. Levanto a cabeça lentamente, e não acredito no que vejo. O cara estava certo.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Agridoce - Capítulo 10




- Então Patrícia, como foi com o Hugo? - Adriana perguntou e deu sua primeira garfada. Eu nunca tinha ido naquele self-service. Gostava de almoçar em lugares não tão próximos do meu trabalho, porque pelo menos não corria o risco de encontrar com pessoas daquele ambiente.

- Como assim? - perguntei já imaginando o que ela me responderia.

- Você sabe né? Todo mundo comentou. Vocês se afastaram da gente ontem. Rolou algo?

- Claro que não! - Naldo interveio.

- Deixa ela responder - Adriana advertiu. Percebi que ela tinha perdido o interesse em seu prato.

- Não rolou nada e nunca vai rolar. Hugo é um estúpido e... - só não completei a frase porque Naldo pigarreou escandalosamente.

- E lindo - Larissa acrescentou - Ainda bem que eu não fico perto dele, porque se eu ficasse só conseguiria fotografar aquele rosto de galã de novela mexicana.


- Detesto novelas, ainda mais mexicanas - revirei os olhos.

- Você é uma mulher de sorte, Patrícia. Não tem noção do quanto o Hugo é cobiçado - Adriana insistiu.


- Sério? - falei com desdém.

- Adriana, o Hugo pode até ser um gato, mas pega todas que estão em seu caminho - Larissa advertiu.

- Pega é de tudo! - Naldo disse num tom de voz mais baixo. Percebi que tinha fechado a cara e abaixado a cabeça.

- O que você disse? - Adriana questionou.

- Nada. Só pensei alto

Ela retomou.

- De qualquer forma, ele é supervisor e sei que tem influências com os editores chefes. Vocês sabem que muitas revistas estão fazendo corte de pessoal, né.



********



- Entendeu as minhas dúvidas? - passei a encará-la.

- Patrícia, primeiramente você não precisa se martirizar com suposições. Antes de mais nada é importante saber o que você quer para si mesma.

- Eu quero melhorar a minha imagem profissional.

- Tem certeza?

- Claro que eu tenho. Esse é o meu maior objetivo.

- Ok. Encerramos por hoje - ela sorriu e se levantou - não deixe de refletir se é isso mesmo que você deseja.

- Já refleti o suficiente, só preciso agir.

- Tenha uma ótima noite - ela me conduziu até a saída.

- Igualmente.

Minha semana finalizou-se basicamente assim: com bastante trabalho e eu indo almoçar com os meus novos "amigos". Estávamos nos preparando para mais uma reunião de pauta, que aconteceria na segunda-feira.

Enfim, sábado.

Fiz o máximo possível para não pensar naquele dia. Teria que mais uma vez enfrentar essa situação. Coloquei uma calça jeans, camisa regata e óculos de sol para cobrir minha angústia. Eram aproximadamente nove da manhã e eu não levaria mais de quarenta minutos para chegar até o meu destino. Até à casa na qual morei com os meus pais.


Foi assim que eu passei a chamá-la: " A casa na qual morei que morei com os meus pais". Não a considerava mais como meu lar. E esse conceito foi desfeito aos poucos. Primeiro, com a morte dos meus avós. Depois, com o abandono de minha mãe. E, por último, com o câncer do meu pai evoluindo. As únicas coisas boas daquele lugar permaneciam apenas em minha memória.

Já no carro, minhas mãos tremiam. Mal conseguia fixar no trânsito. Eu encararia qualquer pessoa friamente, exceto meu pai. Meu herói. Com ele, me esforçava ao máximo para não desabar. Justo com ele.
Justo com o homem que durante muitos anos me deu todo o seu amor e todo o seu carinho.

Não me sentia capaz de conviver com ele assim, de ver diariamente o meu ídolo que tanto venerei, destruído em pedaços. Não entendia o porquê dessa minha impotência. Só estava certa de que a única maneira de ajudá-lo a enfrentar essa situação era mantendo essa distância de quarenta minutos.

Não sei como dirigi. Quando me dei conta já estava diante daquele lindo muro coberto por trepadeiras. Acionei o controle remoto para abrir o portão. Guardei meu veículo na garagem e entrei pelos os fundos até chegar à cozinha.

- Ai! – Pâmela estremeceu assim que me viu.

Ela ofegava tanto que eu me sentia uma assombração ou algo do tipo.

- Desculpe... eu... não... vi... você... chegar – ela falou num tom alto, percebi que era por conta dos fones de ouvido que usava. Assim que fiz sinal ela os tirou rapidamente.

- Com essa música nessa altura você não vai perceber ninguém chegar mesmo.

Ela deu um sorriso vergonhoso.

- Que bom que você chegou, ele estava ansioso para vê-la.

- Onde ele está?

- No quarto dele.

- Pode me acompanhar até lá? – ela não conseguiu esconder o seu olhar de espanto. Afinal, não era comum eu pedir para ser conduzida.

Pâmela foi na frente. Entramos no corredor à esquerda da cozinha, passamos em frente ao meu antigo quarto e depois viramos à direta desse. Pronto. Estávamos diante da porta do dele.

Ela parou, me fitou por alguns segundos e desviou o olhar para o chão. Parecia saber que eu precisava reunir forças mais uma vez. Respirei fundo e quando voltou a me encarar fiz que sim com a cabeça. Por fim, abriu a porta.



quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Apologia das Letras - Aquecimento Literário

Como vocês se preparam para uma leitura? Neste vídeo eu vou mostrar um pouquinho do meu aquecimento literário. Ah e não deixe de se inscrever no canal Apologia das Letras.


quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Agridoce Capítulo 9

- Devo ter saído de lá por volta das duas da manhã. Acredita que ainda tinha gente bebendo? Em plena quarta-feira?

Rimos juntas.

- Isso é muito comum, Patrícia. - ela dizia enquanto limpava os seus óculos, assim que terminou começou a me encarar - Mas e você? Como se sentiu?

- Eu evoluí, não é? Foi um grande passo eu estar ali - repetia a as palavras do cafajeste do Hugo, até então era a única opinião na qual concordávamos.

- Você acha que foi um grande passo?

- Claro! O meu único problema era o fato de não ter me entrosado com os meus colegas de trabalho. Agora estou no caminho.

- Qual caminho?

- Por que tantos questionamentos?! O caminho que vai alavancar a minha carreira.

- Você percebeu que não respondeu a minha pergunta?

- Qual delas? Você fez tantas.

- A primeira.

- Ah! Seu eu estou bem? - respirei fundo - Como eu te disse, minha mãe já tinha acabado com meu dia, então qualquer coisa que acontecesse após aquela cena horrível, me faria melhor.

- Entendi. Você imagina que poderia ter sido diferente a conversa que teve com sua mãe?

- Não sei. Talvez - eu sabia onde ela queria chegar. Queria me fazer sentir culpada e dar razão para minha mãe - Já aconteceu, já passou e eu não quero falar sobre isso.

- Tudo bem. Então, estar ali te fez se sentir melhor?

- Um pouco, não era o lugar que eu desejaria estar. Mas, pelo menos ali, todos os meus problemas sumiram por algumas horas.

Voltei a olhar para o teto.

- Patrícia, é importante que você esteja em lugares que te fazem bem de verdade. É natural termos que lidar com pessoas com as quais não nos identificamos, mas não se sinta obrigada a fazer isso sempre. Principalmente em seus momentos de lazer.

Suspirei.

- Acontece, que aquilo foi o mais próximo de lazer que eu tive depois de bastante tempo... - "sozinha" disse mentalmente, recordei a discussão com Letícia. Não que eu concordasse com aquela metida, mas de certa forma, senti medo daquela palavra.

- Bem, conte-me. Como foi o seu dia de trabalho, afinal é o motivo pelo o qual está tão tensa.



*****



- Bom dia - Letícia disse baixo assim que entrei no prédio, passei por ela. Ainda não entendia o seu fascínio em ficar circulando pela a entrada recebendo as pessoas como uma cerimonialista.

- Bom dia, tudo bem? - mais um passo, costumávamos a nos cumprimentar apenas com "Bom dia".

- Tirando a ressaca sim - ela estava arrumada, mas não tão bem quanto nos outros dias. Seu esforço para esconder as olheiras era bem perceptível.

- Eu sei como está se sentindo - dei sorriso bem discreto, afinal eu tinha bebido tanto quanto ela mas pude sentir um pouco de seus efeitos - Pelo menos nos divertimos.

- Ah e como! Principalmente você - ela falou e saiu andando para cumprimentar outros funcionários que chegavam. 

Ridícula! O que ela quis dizer com "Principalmente você"?

Chamei o elevador. Entrei com um grupo de pessoas, deveriam ser de outra revista. Basicamente cada andar pertencia a redação diferente, exceto a nossa que ocupava dois por ser a maior e a mais rentável da empresa.

Cheguei ao meu piso. Trocamos risos e segui em direção a minha sala.

Cumprimentei a todos que encontrava pelo caminho. Alguns me saudaram com "Grande noite", "Pronta pra outra?", "Como foi de ressaca?", "Bora marcar mais uma?". As respostas foram as mais mecânicas possíveis: "Ótima noite, precisamos repetir", "Claro, é só marcar", "Minha ressaca? Já tive piores" Basicamente o começo do meu dia foi assim.

Já em minha mesa, abri alguns emails e um deles me chamou a atenção. 

"Prepare-se para a nossa reunião de pauta, momento ideal para debater as suas idéias e seus conceitos..."
                
Parei de ler, mais uma ladainha. A verdade é que fazia um bom tempo que não mudávamos a estrutura gráfica de da revista, eu, pelo menos, não via motivos para fazer isso. Nossas fórmulas sempre deram certo.


Após o almoço iríamos nos reunir para discutir os temas do próximo mês.

Larissa entrou em minha sala, que estava com a porta aberta, saudou Ana e veio até minha mesa.

- Olá! Tudo bem? - falou sorrindo.

- Sim, estou bem. E me recuperei bem da festa sim, antes que me pergunte.

- Eu não ia perguntar isso, mas fico feliz por você.

Rimos juntas. Ana nos observava sem entender o que estava acontecendo.


- Então, vamos almoçar num self-service aqui perto, quer vir conosco?

Como assim? Estávamos virando amigas de uma hora para outra. Do nada ela me convidou para uma festinha em sua casa e depois queria que almoçássemos juntas. Isso estava muito esquisito. Mesmo assim decidi dar corda para até onde iria aquilo.

- Pode ser, só um minuto para eu pegar a minha bolsa. - aproximei dela e cochichei - Posso chamar a Ana?

- Não, nada de estagiários, só efetivos. - ela respondeu baixinho.

Bom, no primeiro de teste de boa samaritana ela falhou. No fundo senti um pouco de pena da minha assistente. Eu nunca fui a favor de nenhum tipo de discriminação e mesmo sendo burra, ela trabalhava como qualquer outro funcionário. Não era justo não participar de momentos mais descontraídos.

Pegamos o elevador. 

- Nós vamos no carro do Arnaldo. 

- Sério que ele vai? - disse animada, não sei porque mas gostava dele - Quem mais nos acompanhará.

- Só a Adriana.

- Ah sim.

Chegamos até o seu HB-20 já ligado.

- Olha a mulher-maravilha veio! - Naldo anunciou,

- Mulher maravilha? - Adriana franziu a testa, estava sentada ao seu lado no carona.

Larissa foi entrando e se acomodando enquanto eu contornava o carro para fazer o mesmo.

- Melhor que Miranda Priestly... - Larissa deu um tapa em sua cabeça, não deveria ter sido tão forte.

- Miranda Priestly? Do filme O Diabo Veste Prada?

Ninguém respondeu. Era claro que eu deveria ter um apelido e com certeza imaginava não ser muito agradável. No fundo, sempre quis saber do que eles me chamavam pelas as costas.

- Bom, foi um grande salto. Virei heroína - quebrei o gelo.

Na verdade, decidi dar corda a todos. Vai ser divertido descobrir o porque dessa aproximação tão repentina.


Primeiro Capítulo
Segundo Capítulo
Terceiro Capítulo
Quarto Capítulo
Quinto Capítulo
Sexto Capítulo
Sétimo Capítulo
Oitavo Capítulo

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Agridoce Capítulo 8



A área do fundo parecia ter sido feita especialmente para receber convidados. Coberta por uma tenda, tinha três mesas de mármore, uma mesa de sinuca e uma bela churrasqueira. O que eu achei nada comum para uma mulher. 

Aproximamos deles. Letícia, como eu já esperava não iria perder essa. Hugo, Adriana, Enrique, Arnaldo, Andressa e Ricardo foram os que eu reconheci. Todos estavam se vestindo casualmente e se sentiam muito a vontade. Eles ocupavam apenas uma mesa, que deveria ter 6 lugares fixos. Os outros, para participar da folia puxaram cadeiras avulsas.

Assim que perceberam a minha presença ali, pararam de rir instantaneamente. Eu já esperava essa reação, não tinha o hábito de me reunir com os colegas de trabalho. Para todos nós aquilo era novidade.

- Pessoal, olha só quem veio... - Larissa anunciou. Eles me fitaram por alguns segundos.

Matheus se levantou, e contornou a mesa para me cumprimentar com um beijo no rosto (até o momento não tinha percebido sua presença.)

Eles lançaram um "oi" coletivo.

- Então pessoal, quero saber porque estavam rindo tanto?! - Larissa perguntou enquanto arrastava uma cadeira próxima para eu me sentar.

Eles continuaram em silêncio novamente.

Eu só esperava que eles não estivessem falando de mim. Não era possível que eu viraria a pauta do momento até fora da empresa. Decidi quebrar o gelo.

- Podem falar! Não se acanhem com a minha presença - agradeci o seu gesto com um sinal com a cabeça e assentei.

- É que o papo era meio picante - Letícia me lançou um olhar provocativo - não sei se você vai querer participar.

- Não se preocupe, eu tenho mais de dezoito anos - devolvi o comentário sarcasticamente.

- Estávamos falando dos sacrifícios que as mulheres fazem pelos homens, na cama - Adriana começou.

- Por exemplo? - perguntei.

- Eles não estavam acreditando que nem sempre transamos por vontade própria - Letícia explicou.

- Todo mundo tem vontade de transar sempre. Isso é natural. Esse papo é frescura - Hugo aplicava sua tese. Sim, eu custei a admitir para mim mesma que o meu supervisor proferiu essas palavras.

 Não é bem assim, senhor Hugo. Às vezes, vamos para cama só para agradar sim. Por exemplo, nós temos algo chamado de menstruação que em alguns casos tira todo o nosso tesão. É que fingimos muito bem - Ela se voltou para mim -  Vai me dizer que você nunca fez isso?

Eu não acreditava que ouvia aquilo. Uma mesa repleta de adultos que mais agiam como adolescentes idiotas. Eu teria mesmo que passar por aquilo? Aonde eu estava com cabeça a ponto de achar que iria me distrair com aquelas pessoas? Minha vontade, naquele momento era de sair correndo. Mas com certeza não pegaria bem.

- Não vai responder? - ela provocou.

Todos os olhares estavam direcionados a mim. Virei meu copo, respirei fundo e atendi ao "pedido".

- Gente podemos mudar de assunto né? Isso é muito íntimo para se discutir - provavelmente Adriana percebeu que clima piorava com a aquele assunto.

- Eu quero ouvir a resposta da Patrícia. Quero saber o que ela pensa disso - Hugo incitou a conversa.

- Sem problemas. Minha resposta é não. E boba de você achar que isso é normal. Nunca transei sem ter vontade, ou simplesmente para agradar um homem. Se ele me respeitar vai me entender. É simples assim.

Cheguei a ouvir um "uau" coletivo. Mas não distingui quem. Matheus era o único que não se pronunciava, não pude deixar de notar sua expressão assim que eu dei a resposta. Por que tanto espanto? 

- Pensando bem eu concordo com a Patrícia -  Adriana virou o restante de sua Heineken.

- A opinião da Adriana não conta! - Arnaldo advertiu - ela é vira-folha, antes da Patrícia chegar estava concordando conosco. 

- Arnaldo acho que a pergunta foi direcionada às mulheres - Ricardo falou sorrindo.

- Querido, sou praticamente uma Lady. E para você, é Naldinho - ele disse tocando o ombro do Ricardo.

- Sai fora!

Todos caíram em gargalhadas. Não contive o riso também. 

Arnaldo tinha um jeito de falar, vestir e gesticular só dele. Magro, deveria ter um metro e noventa. Era difícil imaginar um homem daquele porte vestindo uma calça ultra- colada de cor vinho, mocassim verde-musgo e uma camiseta cor-de-rosa cujo decote terminava quase no umbigo. Já trocamos algumas palavras, mas nada além de conversar curtas.

- Temos uma feminista ao extremo aqui - Letícia retomou - Eu posso te dizer uma coisa com a maior certeza. Esse seu discurso é lindo na teoria, mas não funciona na prática. E cá entre nós, nem é tão sacrificante assim. 

- Depende do ponto de vista Letícia. O que é para ser algo especial, se torna mecânico. Mas se bem que acho que nem todas se preocupam se o momento está sendo especial.

- Patrícia, o importante é saber agradar o seu homem. Se ele não tem em casa, logicamente vai procurar na rua.

- Boba de você que acha que vai segurar um homem com o que tem entre suas pernas.

- Gente! - Larissa deu grito, ela sabia que estava saindo faíscas dali e provavelmente, como estávamos começando a ficar alcoolizadas iríamos explodir a qualquer momento - Está na hora de colocar uma música. O que vamos ouvir hoje?

- Os novatos escolhem - Naldo levantou e apontou para mim e para o Matheus.

- Não sei... talvez um sertanejo? Para animar - ele me encarou.

- E você poderosa?

- Eu só ouço rock, mpb...

- Ai rock não! Deve gostar de Maria Gadú né?

- Sim, claro... - respondi desconcertada.

Larissa pegou seu smartphone, abriu um aplicativo para pesquisar uma playlist sertaneja e conectou-o em seu micro-system.

- Olha Patrícia, vou colocar o sertanejo pra animar e deixar o momento filosófico para quando já estivermos bêbados e só tivermos forças para ouvir algo sentados.

Não gostava muito daquele estilo mas a ela estava tão contagiante que permitiu que eu continuasse ali com aquelas pessoas. Para falar a verdade não foi de todo um ruim. Talvez o meu dia ainda tivesse chance de ser salvo.

Tocaram diversas faixas. Já estava se formando pares para dançar, preferi ficar sentada, desfrutando talvez o meu já quinto copo de Whisky. 

Senti uma mão masculina tocando meu ombro.

- Não vai nem tentar uns passos? - Hugo me puxou bruscamente me fazendo ir de encontro ao seu corpo, me arrastando para uma área mais afastada - Eu te ensino, é só dois pra lá e dois pra cá.

- Eu sei o ritmo, já dancei quadrilha no colégio. 

- Aê Patrícia! - alguém gritou e assoviou, não consegui identificar.

- A dança foi só uma pequena desculpa para conversar com você. 

Sério? Não estava muito afim de conversar, principalmente particularmente. Será que ele não percebeu?

Continuou.

- Fiquei muito feliz com a sua evolução Patrícia. Não imaginava que a dinâmica tinha corrido tão bem. E olha só, até foi convidada para uma social com os colegas de trabalho...

- Não estou te entendendo. Você nem estava na empresa hoje.

- Eu tive que ir em várias reuniões importantes para resolver várias questões de reestruturação da editora. Vão remanejar uns funcionários, demitir outros. Você entendeu a importância de passar uma boa imagem? - ele pegou em minha cintura.

- Claro, claro. - engoli seco, perder o emprego em tempos de crise não era uma boa opção para aquele momento.

- Eu te ajudei te dando um toque a respeito de seu relacionamento  com os seus colegas, mas acredito que eu possa te ajudar muito mais. - ele desceu continuou descendo a mão, era visível a sua condição de embriagado. - Sabe como é né, em tempos de crise é bom ter aliados fortes.

- Eu não preciso da sua ajuda e se você acha que... - empurrei-o gritando, mas Naldo me puxou pelo braço. De onde ele surgiu?

- Vamos dançar Patrícia! - fomos novamente para perto do pessoal, ele continuou falando no meu ouvido devido ao som alto - Eu sei que você se acha a mulher maravilha, mas deixa para salvar o mundo outro dia e não se mete com ele.

- Como assim?! - gritei

- Eu ouvi parte da conversa e foi o suficiente para saber que ele quer fazer uma troquinha básica de favores, se é que você me entende. Se você não quer, faz a educada. Sai de fininho. Não vai querer ter o seu supervisor como inimigo.

- E você está me ajudando porque...

- Isso se chama networking querida, gostei de você e vou adorar te ter como amiga. 

Dei um sorriso discreto, era o comentário mais sincero daquela noite.  

- Vou pegar mais whisky - talvez era o meu último, já começara a trocar os passos e tinha que pegar no volante para voltar para o meu apartamento.

Fui até o balde de gelo e lá estava o Matheus se servindo também.

- Puro? Quer ficar bêbada rápido hein.

- Já ouvi isso hoje. - trocamos risos discretos - Você mal entrou na empresa e já frequenta essas festas.

- Eu gosto de reunir assim. Estava na dúvida se eu viria ou não, até na chegar na conclusão que seria uma ótima oportunidade para conhecer os meus colegas de trabalho.

- Entendo. Apropósito, quero me desculpar pela forma estúpida na qual te tratei. Você me ajudou com a dinâmica e eu pensei que estava me cantando.

- Tudo bem, todo mundo tem dias ruins. Devo ter te pegado de mau humor. Afinal, você detonou a Letícia naquele debate nada sensual.

Rimos juntos e demos um gole em nossas bebidas.

- Aquela conversa foi tão desnecessária. Nem sei porque fiz parte dela.

- Não achei desnecessária, foi a oportunidade que eu tive de te conhecer melhor e ver que além de linda, é mais interessante do que eu imaginei.

Droga, ele me deixou sem palavras. Eu conseguia me desvencilhar do Hugo mas não dele. Como pode uma pessoa te deixar sem resposta logo no primeiro dia que o conheci?

Ele seguiu andando em direção a turma, parou e me encarou fixamente.

- Considere isso uma cantanda.


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Sétimo Capítulo
[Continua]