Desejos Ocultos Parte I




O Alarme disparou. Eram sete e meia da manhã. Droga, tinha que ir trabalhar. Drica me beijou suavemente e sussurrou em meu ouvido.

- Querido vai lá desligar.

Levantei tropeçando em tudo e calei aquele rádio relógio irritante, mas como eu posso jogar fora o presente da sogra?

Ela se espreguiçou e coçou os olhos, parecia que seu sono não havia a sustentado, pois devia ter dormido tarde corrigindo provas.

Eu tinha 22 anos quando a conheci na faculdade e ela 21. Fazia Ciências Contábeis e ela Matemática. Casal perfeito? Bom, pelo menos, nunca tivemos problemas financeiros. 5 anos casados parece ser promissor nos dias atuais. Além disso, como eu poderia não me apaixonar por aqueles belos olhos castanhos, que fazia conjunto com seus deliciosos lábios carnudos. Sem falar de seus ondulados cabelos loiros que davam vida a qualquer movimento que ela fazia. Nos dávamos muito bem, às vezes até me assustava com tamanha perfeição.

Enfim, levantou.

- Será que você tem muito trabalho hoje Rafael? - ela falava já se levantando.

- Não sei, Drica. Depende do andamento do escritório – disse já indo para o banheiro me lavar.

- Você podia fazer um esforço para chegar mais cedo, sabe... - ela disse mais alto, o barulho do chuveiro atrapalhava a nossa conversa.

- Vou fazer o possível. Por que? - também falei alto, me ensaboando.

- Surpresa.

- Detesto surpresas.

- Dessa você vai gostar – ela falou com um tom de voz instigante.

- Hum, então vou fazer questão de chegar mais cedo hoje.

Sai do banheiro e a beijei calorosamente.

Nos trocamos, descemos e tomamos café. Depois disso, fomos para os nossos respectivos empregos. Sempre tive uma vida simples, estável, sem novidades. Confesso que no fundo, até me entediava. Mas esse tédio me dava uma certa segurança, afinal o que poderia dar errado?

Cheguei em meu trabalho, não muito perto. Levava cerca de 40 minutos de carro. Lá encontrava diariamente com centenas de pilhas de papéis loucas para serem examinadas. Mas nenhuma novidade: pagamentos, rescisões de contratos, acertos, impostos, despesas, gente irritada, gente feliz, enfim, tédio.
Era mais um tédio benéfico porque me rendia grana, então valia a pena.
Imagina só você se formar, conhecer as pessoas certas e logo ser contabilista em um grande escritório. Foi bem assim.

Cheguei na cozinha, não tinha ninguém. Logo depois, Fernando veio. Ele era meu melhor amigo. Tinha estatura média, moreno e um corpo de quem praticava muito esporte. Dois anos mais velho que eu, foi ele que me indicou para trabalhar aqui. A diferença era que ele cursou Administração.

- E aí cara, tudo bem? - ele já chegou apertando minha mão com simpatia.

- Tudo ótimo e você? - retribui o gesto.

- Sussa, como sempre.

Ele pegou seu café e sentou na mesa, eu o acompanhei.

- Cara, estou tão feliz – ele falou empolgado.

- Realmente vejo que está.

- Claro, Dez anos velho. Dez!

- Porra! Parabéns! - eu o abracei fortemente – Com certeza, vocês tem algo especial para essa noite.

- Claro que sim. Mas nada sofisticado, tivemos a ideia de ir na pizzaria em que nos encontramos pela a primeira vez.

- Criativo hein...

- E barato.

Nós rimos.

- Espero que dê tudo certo.

 - Vai dar.

 - E você? Como anda com a Drica?

 - Bem, muito bem.

 - Isso é bom.

 - Bom até demais. - falei com uma certo desdém.

 - Não entendi esse “bom”.

 - Eu não tenho nada do que reclamar em nosso relacionamento, mas eu sinto que ele esfriou.

 - Ah! Que gay isso. Larga de frescura! Homem não tem dessas crises existenciais não - Pronto, sabia que ia começar a gozação, ele sempre foi disso.

 - Pra quê eu fui falar? – coloquei a mão na testa.

 - Mas vai continua...

 - Não chega, tu não me leva a sério.

 - Fala logo!

Dei um tempo, olhei para os lados e recomecei.

 - Ela é linda, muito boa de convivência, quase nunca brigamos. Mas nosso relacionamento é sem graça, sem sal. E ela é péssima de cama.

 - Nossa, detonou a mulher. Deixa de frescura, é só meter e pronto. - antes que eu pudesse responder, ele continuou – Agora é sério. Você a ama?

 - Sim, quer dizer, aprendi a amar. Mas acho nossa relação sem graça.

 - Você deveria conversar com ela, falar o que você quer. Suas preferências.

 -  Não aguento mais, ela está sempre cansada. Não aparenta, mas está sempre ocupada.

 - Ela é professora cara.

 - E eu contador.

 - Isso é falta de conversar, às vezes acontece de casais ficarem distantes.

 - Não sei...

Ele faz sinal para que eu me calasse, tinha chegado gente na cozinha. Então saímos.

 - Depois continuamos nossa conversa – e foi para sua sala.

Sentei em minha mesa e vi que não tinha muitos contratos para preencher. Decidi ler algumas notícias da internet. Estava tudo tão tranquilo, abri vários sites mas nenhum deles me interessava. 
Apareceu um pop up de um site de bate papo. Decidi abrir por curiosidade. Era o mesmo que eu acessava antes de conhecer a Adriana. Cliquei nele e digitei a senha, ainda me lembrava. Tinha muitas mensagens, a maioria, obscenas. Fui lendo várias, confesso que ri de tudo aquilo. Por que não exclui aquela conta?

Neste instante, caiu uma mensagem de GatoSelvagem.

“Olá, você está aí?”
Respondo só para curtir com a cara.
“Estou sim, e aí? O que você procura aqui?
“Sexo casual e você?”
“Tbm”
"O que você faz de bom?”
“Estou aqui me masturbando vendo você 'trabalhar'”

De repente eu gelei. Fiquei tenso. Comecei a suar. Meu Deus! Como ele sabe de mim?

Abri o perfil para ver se achava fotos dele mas, pareciam ser todas falsas. Na época eu usava fotos reais, nada erótico mas simplesmente esqueci dessa conta. Depois que conheci a Drica, não precisava mais dela. Tinha que apagar aquilo. Cliquei em configurações e deletei. Pronto.

O dia continuou calmo, até que Otávio, meu chefe chegou em minha sala. Ele era alto, branco, tinha a voz forte e imponente. Não chegava a ser chato mas sempre foi meio folgado.

 - Preciso que você analise o caso do João para mim. - ele arremessa uma pasta em minha mesa.

 - De novo?

 - Sim, ele insiste em dizer que tem um problema na contagem da aposentaria dele. Eu prefiro deixar essa tarefa para você.

 - Tudo bem.

 - Quero a resposta hoje, ok?

- Por que? É urgente.

- Mais ou menos.

- Não entendo, os estagiários podiam fazer isso.

 - Podiam, mas está acontecendo muitos erros aqui, então eu preciso desse favor seu. Além disso, conheço o ex-chefe dele, acho que ele está dando golpe em vários funcionários.

 - O que nós temos com isso?

 - Apenas vamos tirar o nosso da reta. Eu confio em você para isso – ele colocou a mão em meu ombro e saiu da sala.

Merda. Justo no dia que eu queria chegar mais cedo em casa. Fiz o mais rápido que pude, era por volta das seis e meia. Era sexta-feira e já não tinha mais ninguém na contabilidade. Fui levar a contagem até sua sala.

Dei duas batidas na porta e entrei, como o de costume.

 - Está aqui, agora realmente preciso ir embora.

 - Tem certeza? - ele falou com um tom de voz estranho. - Senhor bi?

 - O que? - Então era isso, ele descobriu.

Ele levantou da cadeira olhando fixamente para mim.

- Como a gente descobre os podres dos outros facilmente, não é? Essa é a inclusão digital - ironizou.

- Não sei do que você está falando. - tentei desviar o olhar.

Ele se aproximou de mim e começou a me tocar, eu o empurrei na mesa.

 - Hei, vamos parar com isso! - gritei

- Parar por que? Eu sei que você gosta.

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